Série 100 anos do Noroeste. Na reportagem desta quinta, vamos mostrar, Xandú, Zé Carlos, Toninho Guerreiro, Lela, Baroninho. Ídolos do Norusca que a torcida não esquece. Cada timaço que o Noroeste já teve nesses 100 anos. Em cada foto, o torcedor tem seu jogador favorito. E ao longo do tempo, surgiram os ídolos.
"Então, eu estou muito contente, eu sou o único sobrevivente". Frase de Xandú, zagueiro do time nos anos 40 e 50. Infelizmente era o único sobrevivente. Xandú tinha 90 anos. Morreu em agosto, vítima de câncer. Era o único ex-jogador vivo que atuou em 1943, no primeiro título do Noroeste.
É o atleta que mais vezes vestiu a camisa da locomotiva. Começou na lateral, depois foi pro miolo de zaga. É o destaque da foto ao lado do goleiro Amélio e do zagueiro Irineu, o pé de boi.
Xandú, no meio, no primeiro título do Noroeste em 1943
"Futebol naquele tempo era mais firme, mais forte. Mas tinha gente boa, e aqueles que davam ponta pé também", lembra Xandú. Não era o caso dele. Em um Noroeste e BAC, anulou Dondinho, pai de Pelé, na década de 40 e detalhe: sem fazer uma falta. "Eu parava, porque ele ficava bravo, porque eu não ia na dele, eu cercava ele, ele tinha que jogar a bola pra lá", lembra.
Jogou por 12 anos na maquininha. Em 53, no acesso pra elite do Paulistão, era reserva daquele timão que tinha Brotero, Luiz Marini, Ranulfo e Zeola, que mais tarde jogaria no Juventus e Palmeiras.
Zeola, que mais tarde jogou no Palmeiras e Juventus
Aos 74 anos, Zé Carlos Coelho sabe o que fala. Experiência de quem é apontado por muitos como o maior jogador do Noroeste de todos os tempos. "Às vezes eu me pergunto pra mim mesmo se realmente é verdade isso", afirma. Varlei de Carvalho, companheiro dele na década de 60 não tem dúvida. "O melhor meia, até hoje sem sombra de dúvida: Zé Carlos, foi um meia sensacional, completo na minha opinião"
Era mais que isso. "Ele era técnico demais, ele era cabeça, era cérebro, ele parava o jogo, ele sabia o que tava fazendo", confirma o torcedor do Noroeste Lauri Ruiz. "Eu era um jogador mais técnico do que um jogador de raça , jogador de mais inteligente", explica o próprio Zé Carlos.
Zé Carlos Coelho veio da Portuguesa pro Noroeste e realizou um sonho."Foi o objetivo daquele moleque, que praticamente pobre e conseguiu um lugar ao sol dentro do futebol brasileiro", conta. Jogava muito. Uma comparação para os mais jovens: tinha o estilo de Zidane.
Jogou de 60 a 67 no time de Bauru, ao lado de grandes jogadores. Na foto em 60, está com Maneca, Gualberto e Gelson.
Em outra, estão Navarro, Valdo e um tal Antônio Ferreira. O Toninho Guerreiro, um fenômeno. "Uma revelação, um menino precoce, 17 e 18 anos explodindo, jogando entre os chamados marmanjos, de 28, 30. Era diferenciado", conta o narrador esportivo Valter Lisboa.
Era o primeiro título mundial do Brasil: 1958 na Suécia. Pelé tinha deixado Bauru dois anos antes. "Bauru tava com aquela fama recente, 60 para 58 são 2 anos, quando o Pelé explodiu na Copa do Mundo, então Bauru tinha marca no futebol", lembra o narrador.
O bauruense Toninho Guerreiro foi um dos maiores centroavantes que o futebol brasileiro já produziu. "Era um jogador que sabia tudo dentro da área, eu reputo dois grandes jogadores nesse estilo: Romário e Toninho Guerreiro", afirma Zé Carlos Coelho.
Deixou a locomotiva pra jogar ao lado do rei no Santos. Ganhou 3 Paulistas com o time da baixada: 67, 68 e 69. Foi pro São Paulo e virou ídolo. Na década de 70, jogaram no Norusca Fedato, Mestre Lorico, Araújo, Marco Aurélio Moreira, Julinho e por aí vai.
Quando o fenômeno chegou ao Corinthians criou alvoroço. Baita jogada de marketing, mas o então presidente do Noroeste, Cláudio Amantini, já tinha feito algo parecido muito tempo antes. "Ninguém acreditava que eu pudesse contratar o Jairzinho, o pessoal tirava sarro". Quem cornetou Amantini, se deu mal. O furacão da Copa de 70 chegava em Bauru.
Jairzinho era uma das estrelas do Brasileirão de 78. "Onde o Noroeste chegava, tava cheio de gente da imprensa. Por causa do Noroeste? Não. Por causa do Jairzinho. E naquele ano, o furacão foi um dos responsáveis pelo sucesso de um carro.
"Ele como era conhecido, os zagueiros, os beques se preocupavam muito com ele e a bola sobrava pra mim, então a gente até conversava dentro de campo: ele ia na bola, trombava com o zagueiro, na época a gíria que a gente falava, ela espirrava e sobrava para o Lela e eu acabei me consagrando graças ao Jairzinho", lembra Lela, atacante nas décadas de 70 e 80.
E como se consagrou. Em 81, Lela foi negociado com a Inter de limeira por 10 milhões de cruzeiros, o equivalente a R$3.600.000,00. Na época foi à transação mais cara entre dois times do interior. "Ficou meio estranho, na época, um clube do interior comprar outro jogador do time do interior, do próprio nível, eu me lembro que a Inter na época não era conhecida, era até menos que o noroeste de Bauru, eu não sei como foi essa transação, só sei que foi bom pra mim", conta Lela.
De lá foi pro Fluminense e depois Coritiba, onde foi campeão brasileiro em 1985. Num olhar despretensioso, ele passaria despercebido como técnico do Varginha Esporte Clube, time que disputa a terceira divisão do campeonato mineiro, mas a história que construiu como jogador do Noroeste, o coloca entre os maiores de todos os tempos do clube. Tinha um chute de outro mundo, talvez por isso o porque dele estar na terra do ET. "Eu batia forte hein", confirma Baroninho, ex-atacante do Noroeste.
Baroninho, ex-atacante do Noroeste
"Era um jogador determinado, não era um jogador driblador, mas se deixasse na bola. Então eu defino assim, um cara guerreiro dentro do campo, por isso eu sou um cara vencedor", completa.
Põe vencedor nisso. Chegou em 73 no Noroeste. Cinco anos depois foi negociado com o Palmeiras. Brilhou sob o comando de Telê Santana. Chegou a Seleção Brasileira Junior. Em 81 foi campeão mundial com o flamengo, naquele timaço da Gávea com Junior, Andrade, Zico, Adílio, Tita. Voltou em 87 ao Noroeste, naquele time que marcou época.
"Era um time que jogava por música, realmente a gente não tinha medo de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, fazia confronto direto, não respeitava esses times, o time era muito forte", lembra Baroninho.
O ex-jogador Varlei de Carvalho virou técnico. Se tornou o cara que mais treinou o noroeste: 7 vezes. Foi ele quem montou o time de 87. "Um time sensacional que nós formamos aí, que falam até hoje que foi um dos melhores equipes que o noroeste já teve, com Jacenir, Márcio Araújo, Rodinaldo, Baroninho, Everton goleiro Chico Spina", conta Varlei Batista de Carvalho, 7 vezes técnico do Noroeste.
Início da década de 90, Ronaldo Marques brilhou com a camisa alvirrubra, mas com o passar do tempo, os craques foram ficando escassos. Era a fase decadente, e o Noroeste parou de revelar talentos.
"O último jogador que o Noroeste revelou foi o Baroninho. O Baroninho já parou faz 30 anos quase. Há 20 poucos anos, 25 mais ou menos que o Noroeste não revela ninguém. Quando eu digo revelar, é revelar, e não é jogador que sai daqui e joga ali", ressalta Paulo Simonetti.
A internet é o futuro. E é no meio que os torcedores mais jovens reverenciam Otacílio Neto, que fez sucesso em 2008, quando marcou 10 gols no Paulistão. Foi uma passagem rápida, mas pra alegria da torcida, o atacante, hoje no Goiás, gosta de Bauru. "Adoro e gosto demais do Noroeste, espero que um dia eu possa voltar a jogar lá ainda", conta o atacante do Goiás. Enquanto não volta, os torcedores lembram dos ídolos do passado e depositam no presente, a esperança do surgimento de um novo craque no futuro.